8 fatos sobre a Guerra Civil na Síria, que completa oito anos

Por Carla Trabazo

A guerra na Síria completou oito anos desde o seu estopim, em 2011. O que começou com protestos contra o governo do presidente Assad logo se transformou em uma guerra entre o governo sírio (apoiado então pela Rússia, Irã, grupo Hezbollah e por um partido libanês muçulmano) e grupos rebeldes anti-governo, contribuindo, ainda, para a expansão de grupos extremistas na região, como o Estado Islâmico.

Atualmente, o conflito já resultou na saída de mais da metade da população do país, segundo dados do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (ACNUR), em busca de refúgio em outras nações ou ainda em regiões mais seguras dentro do território sírio (os chamados deslocados internos).

A situação atual não dá indícios de uma resolução no futuro próximo, ainda que haja um crescimento nos registros de cidadãos retornando à Síria este ano, em certas regiões onde o conflito parece ter apaziguado, numa tentativa de retornar à normalidade de suas vidas.

O Instituto Global Attitude reuniu oito fatos sobre como a guerra se configura atualmente:

1. O conflito já dura mais que a Segunda Guerra Mundial
Com duração de 6 anos, entre 1939 e 1945, a segunda grande guerra já foi ultrapassada e muito pela atual guerra na Síria, país que gera mais refugiados do que qualquer outro país no mundo. Segundo o ACNUR, a duração do conflito também levanta um alerta para os riscos de se tornar uma emergência esquecida.

Membros das Forças Democráticas Síria avançam em território autoproclamado do Estado Islâmico. Foto: Zohra Besemra/Reuters

2. Ao todo, mais da metade da população foi obrigada a deixar suas casas
A situação na Síria é considerada a maior crise de deslocamento do mundo. Ainda de acordo com dados do ACNUR, contabilizam-se mais de 5,6 milhões de refugiados registrados em outros países e mais de 6,5 milhões de deslocados internos. Estes números significam que os sírios compõem um terço da população total de refugiados no mundo. Atualmente, 1 milhão de bebês sírios nasceram em outro país.

3. Países fronteiriços são os que recebem a maior parcela de refugiados sírios
Destes 5,6 milhões de refugiados, a maioria se encontra em apenas cinco países que fazem fronteira com a Síria: Turquia, Líbano, Iraque, Jordânia e Egito. Apenas na Turquia, foram acolhidos pouco mais de 3 milhões de sírios, já no Líbano, estima-se que uma em cada quatro pessoas é um refugiado sírio.

Tendas que abrigam deslocados internos em campo na Síria. Foto: Khalil Ashawi/Reuters

O Brasil desempenhou papel importante na acolhida de sírios no auge da crise de refugiados. De 2011 a 2015, o país recebeu mais sírios que as nações europeias, com um total de 2.077 aprovações de status de refúgio, tornando-se a nacionalidade com mais refugiados reconhecidos no Brasil. Em 2017, porém, este número caiu para 823, segundo relatório do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), ano em que houve um disparo de refugiados venezuelanos no país (17.865 solicitantes, no total).

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4. 70% dos refugiados sírios vive em situação de extrema pobreza
Cerca de 90% dos sírios em situação de refúgio nos países vizinhos vivem em comunidades de acolhimento, localizadas em zonas rurais e urbanas. Apenas na Jordânia, 8 em cada 10 sírios que moram fora dos campos vivem abaixo da linha de pobreza. De acordo com relatório do Acnur, cerca de 60% dos refugiados no Líbano vivem com menos de 2,87 dólares por dia, valor que configura pobreza extrema.

Deslocados internos recebem da ONU caixas com alimentos. Foto: Erik de Castro/Reuters

Com dívidas absurdas, as famílias são obrigadas a contar com a ajuda das crianças para complementar a renda, sendo estas obrigadas a deixar os estudos. Ainda no Líbano, segundo o Norwegian Refugee Council (NRC) um em cada três garotos sírios vivendo no Líbano, de 15 a 17 anos, desempenha trabalho infantil.

5. Estima-se que 50% da população na Síria vive sob risco de minas explosivas
Nas regiões de conflito, as pessoas que vivem ali estão sob constante risco de se deparar com minas terrestres ou outros itens de artilharia explosiva. Segundo estudo do NRC, estima-se que 10 milhões de pessoas estejam vivendo em áreas consideradas contaminadas. Maioria das pessoas em situação de vulnerabilidade (70%) são mulheres e crianças.

Mulher após ataque aéreo em cidade síria. Foto: Bassam Khabieh/Reuters

6. A educação entre crianças sírias está em situação crítica
As crianças sírias estão ficando para trás nos estudos. Algumas já perderam o equivalente a seis anos de escolaridade e, atualmente, 700 mil meninos e meninas em idades correspondentes ao Ensino Fundamental estão sem estudar no país. Um dos fatores que contribuem para esta situação é a destruição, danificação ou uso como abrigo temporário de uma a cada quatro escolas no território sírio (NRC). Além disso, cerca de 180 mil professores estão impossibilitados de dar aulas.

Crianças em sala de aula no sul da Síria. Foto: Khalil Ashawui/Reuters

Outras 2,1 milhões de crianças que vivem em outros países também estão fora das escolas. O conflito causou uma geração inteira de jovens desprotegidos e sem direitos à educação. Antes da guerra, estima-se que 97% das crianças sírias frequentavam a escola primária e outras 67% a escola secundária, segundo a NRC.

7. Governo sírio dificulta ação de trabalhadores humanitários no país
Mais de 11,7 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária. Quase 8 milhões de sírios vivem em áreas controladas pelo governo, situação que causa receio em outros países para enviar recursos e auxílio financeiro. O governo impõe, ainda, restrições a trabalhadores humanitários, dificultando alcançar pessoas necessitadas.

Homem reage a ataque realizado por forças ligadas ao presidente sírio, Bashar al-Assad, em Aleppo. Foto: Hosam Katan/Reuters

8. Os sírios resistem
As famílias sírias têm demonstrado, ao longo do conflito, ter uma resiliência admirável, sendo obrigadas a lidar com o que recebem para recriar uma rotina digna. Abrigos temporários foram transformados em casas e sacrifícios foram feitos para reunir parentes. Muitos sírios despertaram criatividade e empreendedorismo para reconstruir suas vidas.

De acordo com pesquisa realizada pelo ACNUR em 2018, 76% dos refugiados sírios afirmaram que esperam voltar para seu país um dia.

Cotidiano de população em Aleppo, na Síria. Foto: Omar Sanadiki/Reuters