Israel e Palestina: se essa história fosse minha…

Por Maria Luiza Pacheco*

No ano e mês em que eu nasci, setembro de 1993, firmavam-se os mais importantes acordos de paz entre Israel e Palestina: Os Acordos de Oslo. Bill Clinton, então presidente dos Estados Unidos, trouxe ao jardim da Casa Branca o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin e o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, surpreendendo o mundo com a notícia do consenso. 

Israel passou a reconhecer a OLP como representante dos palestinos e esta, por sua vez, reconheceu o direito de existência de Israel. A violência como método de negociação da paz entre os dois Estados foi condenada. Durante a fase intermediária de negociações, Israel entregaria à administração palestina territórios da faixa de Gaza e da Cisjordânia. Mesmo hesitante, Rabin demonstrou um misto de esperança e ceticismo por parte do seu povo.  

A expectativa de uma paz estável e duradoura causou euforia, rendendo inclusive um Prêmio Nobel da Paz. No entanto, ela foi bruscamente enfraquecida quando eu estava apenas com dois anos e dois meses de idade, ainda um bebê, em novembro de 1995 com assassinato de Yitzhak Rabin por um extremista judeu oposto ao processo de paz. 

Em 1996, Benjamin Netanyahu chega ao governo, aprovando a construção de novos assentamentos judaicos em Jerusalém Oriental e iniciando o processo de desarticulação e desconstrução da paz. Sua permanência no poder até 1999, seu retorno em 2009 e a manutenção até hoje fortaleceu a extrema direita no país.

No final dos anos 90, houve muitas movimentações. Acordos, tentativas de negociações, retiradas de tropas e intermediações de atores como os EUA, União Europeia, Rússia e as Nações Unidas, que buscavam sobretudo moldar o destino dos territórios disputados como Jerusalém, Cisjordânia, Faixa de Gaza e Colinas do Golã. 

Leia mais: Mulheres, paz e segurança: do local ao internacional

No mês que eu fiz 7 anos de idade, setembro de 2000, ocorreu a Segunda Intifada, conjunto de eventos que marcou a revolta civil dos palestinos contra a política administrativa e a ocupação israelense. Conflitos violentos caracterizaram esse período, com milhares de mortes em ambos os lados e um alarmante número de suicídios. Após negociações, os acordos resultaram na desocupação de Israel na Faixa de Gaza e partes da Cisjordânia após 40 anos de apropriação, retirando tropas e 8 mil colonos. 

Durante a minha infância foi um grande “vai e vem”: há momentos otimistas de discussões sobre as questões dos assentamentos, refugiados, fronteiras, segurança, o futuro de Jerusalém e a criação do Estado da Palestina. Por outro lado, há momentos de tensão, com  assassinatos de membros importantes de ambos os lados, a ascensão do Hamas e sua disputa com o Fatah e com Israel. Um eterno jogo de “revidar” ataques e a interferência de peças-chave como EUA, ONU e UE. Nenhuma grande novidade… um ciclo de ornamentações sem resultados consistentes.

No início dos anos 2000, o Hamas vence as eleições parlamentares palestinas, e passam a dominar o território e em Israel, o Partido Centrista Israelense Kadima vence a eleição mas fica por pouco tempo. Nesta época eu estava com uns 13 anos de idade, período de transição para a adolescência, fase que mistura maturidade, rebeldia e potencialmente alienação. Às vésperas dos meus 15 anos, a Conferência de Paz de Annapolis cria expectativas para a “solução de dois estados”, mas logo Israel invade Gaza por um mês a fim de impedir o lançamento de foguetes pelo Hamas.

 

Em 2009, Netanyahu, líder do partido Likud, de direita, retorna ao poder. Sob pressão norte americana, o governante apoia um estado palestino ao lado de Israel pela primeira vez, mas impõe condições não favoráveis à Palestina, e novamente não há acordo. Nos anos que se seguem, os EUA continuam presentes nas intermediações de paz, mantendo relações estreitas com Israel, seu representante no Oriente Médio, principalmente através de auxílio militar e diplomático. Palestina adquire em 2012 status de Estado Observador Não Membro da ONU sem direito ao voto na Assembleia Geral.

A partir dos meus 18 anos, quando passei a estudar mais sobre os conflitos entre Israel e Palestina, o que me vem à cabeça são as mortes. Não por acaso, nesta época há muitos ataques de foguetes em direção a Israel e Netanyahu diz não à solução de dois estados nas vésperas da eleição em 2015. Há dois anos atrás, quando eu estava no meio do Mestrado em Relações Internacionais – Estudos da Paz, Segurança e Desenvolvimento, Israel aprova uma lei que legaliza 4 mil casas de colonos construídas ilegalmente em terras palestinas na Cisjordânia, tornando-se mais um obstáculo para a paz.

No final de 2017, o Presidente Donald Trump reconhece Jerusalém como a capital de Israel e ordena que a embaixada americana se mude pra lá, causando uma onda de violência e protestos que resultou na morte de 58 palestinos e 2.700 feridos em Gaza. A grande notícia de 2019 é que Netanyahu se torna o premier israelense que mais tempo está no poder, 13 anos, batendo o recorde do fundador do Estado: Ben-Gurion. Não conseguindo maioria, ele dissolve o Parlamento, impedindo que outro candidato se eleja, além de ser firmemente acusado de corrupção. Os israelenses voltarão às urnas em setembro e então saberemos o que virá. Sobre os avanços nos processos de paz entre Israel e Palestina, hoje com 25 anos de idade –  ano do 70º aniversário do Estado de Israel me encontro pouco otimista. 

Os jovens israelenses, que nasceram mais ou menos na mesma época que eu, cresceram durante a Segunda Intifada, viram o conflito de perto, centenas de mortos e feridos. Quando estes jovens judeus estavam entre 4 e 20 anos de idade, presenciaram a retirada dos colonos e militares de Gaza. Parte deste grupo ficaria desagradado com um líder que estivesse disposto a ceder mais terras. Um fração desse grupo ainda serviu ao exército em guerras sucessivas em Gaza,  firmando essa percepção.

Pesquisadores e analistas políticos sobre o tema acreditam que as pessoas que cresceram em meio a Intifada, não confiam nos palestinos e por consequência, não acreditam em uma paz estável e duradoura. Para os jovens judeus mais religiosos sionistas, a retirada, que deslocou  milhares de colonos judeus foi devastador. É como se estivessem abrindo mão de uma terra, e em troca recebem foguetes. A ideia de que esses jovens desconhecem outra forma de poder e não puderam presenciar acordos de paz eficazes, faz com que suas esperanças sejam praticamente inexistentes. Eles escolhem se proteger, e se manter na zona de conforto, economicamente estáveis… seguir pelo caminho que conhecem.

Outro elemento importante que leva essa população a ser mais de direita é o aspecto religioso. Esta geração de israelenses engloba muitos jovens ortodoxos sionistas, mais do que em gerações anteriores, dizem historiadores. Além disso, a utilização de redes sociais na política também contribui significativamente para a onda conservadora na juventude. Netanyahu prefere muitas vezes se pronunciar em suas redes, como Twitter e Facebook do que falar com a imprensa, pois lá toda palavra é pensada e medida.

É difícil afirmar que foram os jovens aqueles que entregaram a Netanyahu a eleição deste ano. Mas fica claro pelos dados já divulgados que grande parte deles está a seu favor. Segundo o Índice de Democracia Israelense 2018, pertencente ao Israeli Democracy Institute, aproximadamente 65% dos judeus israelenses entre 18 e 24 anos e 53% daqueles entre 25 e 34 anos favoreceram Netanyahu. Por outro lado, apenas 17% e 33% respectivamente escolheram seu oponente Benny Gantz.

Enquanto escrevia este artigo, pensei sobre a realidade do Brasil e a realidade de Israel hoje. Pensei sobre o que estava acontecendo no Brasil quando eu nasci e quem o governava, de quais momentos históricos eu me lembro que ocorreram durante a minha infância e adolescência, quais presidentes me marcaram, meus estudos de geopolítica na escola, o que eu via e ouvia na televisão, a influência dos meus pais… enfim, me peguei pensando em quem eu seria se estivesse nascido exatamente no ano que nasci, mas vivido até hoje em Israel.

 

*Conheça a colunista:
Maria Luiza Pereira Pacheco é internacionalista e pesquisadora, graduada em Relações Internacionais pela Universidade Vila Velha e mestra em Relações Internacionais – Estudos da Paz, Segurança e Desenvolvimento pela Universidade de Coimbra. Tem experiência em comunicação social nas áreas de direitos humanos, empoderamento feminino e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Atua em Terceiro Setor e assessoria internacional, e atualmente pesquisa processos de paz e a participação das mulheres.