Mulheres, paz e segurança: do local ao internacional

Por Maria Luiza Pacheco*

Tradicionalmente, as guerras são entendidas e lembradas como disputas entre homens, resolvidas por homens e contadas por homens. Essa associação cultural, política, social e histórica faz com que uma estrutura não só prática, mas também discursiva ainda legitime a marginalização feminina nas questões de paz e segurança local e internacional.

Com o fim da Guerra Fria, a prevenção de conflitos e os processos de (re)construção da paz tornaram-se uma das principais preocupações da comunidade internacional. Se antes os conflitos eram interestatais, no pós-guerra eles passam a centrar-se nos próprios Estados, compondo um cenário de crises securitárias e humanitárias, também chamadas de emergências complexas. Essa nova conjuntura tinha como características o colapso do governo central e macroeconômico, insegurança alimentar, violação dos direitos humanos, conflitos étnicos e religiosos, extrema pobreza e violência.

Foto: Reprodução

Assim, com as novas preocupações em vigência, surge a necessidade da ampliação da agenda internacional, incluindo novos temas, como meio ambiente, direitos humanos, humanitarismo, identidade e gênero. A redefinição do conceito de segurança, que antes se caracterizava pelo estudo da ameaça atrelado ao uso de força bélica, passa a incorporar a importância de atores antes negligenciados, e é neste momento que a temática de gênero passa a ter maior espaço nos estudos da paz e da segurança.

As propostas feministas de Relações Internacionais ganham destaque em meio aos debates teóricos que acompanham essas mudanças de cenário (correntes pós-positivistas em contestação ao protagonismo do Estado defendido pelas teorias tradicionais, como o realismo e o liberalismo). Refutando as teorias convencionais, que definiam gênero como relações interpessoais entre homens e mulheres, as correntes feministas, segundo Ann Tickner¹, uma das principais teóricas do tema, compreendem que as diferenças de gênero são uma construção social e cultural presente em todas as dimensões da vida pública e privada, onde o poder, a autonomia e a racionalidade são associados à masculinidade. Além de definirem o gênero como uma categoria de análise, elas criticam os modelos tradicionais de violência, paz e segurança, defendendo que as diversas formas de violência interferem diretamente na realidade das mulheres, em diversos níveis e contextos. Mas o que isso quer dizer?

Foto: Albert Gonzalez Farran / UNAMID

Em 1990, o clássico livro “Bananas, Beaches and Bases²” da autora Cynthia Enloe nos ajuda a compreender. Enloe lança a pergunta: “Onde estão as mulheres?”. A autora questiona a representação feminina na política internacional após duas décadas de feminismo nos estudos de RI, indagando sobre os papéis das mulheres no militarismo, na diplomacia, na segurança e no desenvolvimento, e seus efeitos para a política global. Ela aponta que a histórica marginalização das mulheres as tornou invisíveis e ausentes dos processos agenciadores de segurança, e propõe repensar como o pessoal, é também internacional, ou seja, como a as estruturas domésticas podem influenciar nas políticas globais.

Assim, o primeiro passo para essa compreensão seria reconhecer as diferentes formas de violência – direta, estrutural e cultural³ – que compõem um ciclo, o que também podemos chamar de continuum. Elas podem surgir da construção de estereótipos de gênero que definem papéis para os homens, como o da força e da agressividade e para as mulheres, como o da fraqueza e o da vulnerabilidade, contribuindo para a consolidação, naturalização e perpetuação de relações desiguais de poder. Essas relações criam estruturas sociais, políticas e econômicas patriarcais que se sustentam desde o local ao internacional, criando barreiras significativas para a inclusão das mulheres nas diversas dimensões das Relações Internacionais e no seu reconhecimento como agentes de voz, poder, decisão e influência.

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Compreendendo que as relações de poder entre homens e mulheres influenciam diretamente na construção da paz e da violência, é fundamental ter uma visão de baixo para cima, ou seja, do local ao internacional. É preciso reconhecer esse ciclo de violências, que ocorre localmente, mesmo em tempos de paz formal, como a violência armada, a violência doméstica e a própria Violência Baseada em Gênero. Elas contribuem para a marginalização das mulheres no âmbito da segurança, e inevitavelmente nos processos de construção da paz como peacekeepers (militares), como peacemakers (negociadoras, mediadoras e signatárias), e como peacebuilders (civis).

Valorizar a temática de gênero nas questões de paz, violência e segurança, significa reconhecer a importância das mulheres participarem, representarem, tomarem decisões, influenciarem e contarem histórias da mesma maneira e intensidade que os homens. Significa considerar a igualdade de gênero um elemento essencial para o processo de construção de uma paz mais estável e duradoura, pois trata-se de equalizar as necessidades e potencialidades de todos, sem distinção.

“Não podemos todos ser bem-sucedidos quando metade de nós está restringida”. Essa foi a fala de Malala Yousafzai, ativista paquistanesa ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2014, vítima de um atentado pelo Talibã por defender o direito das meninas de irem à escola. Atualmente, Malala é a Mensageira da Paz mais jovem na história da ONU e é um exemplo de luta pela igualdade de gênero.

Foto: Divulgação

¹Tickner, Ann (1997) “You Just Don't Understand: Troubled Engagements between Feminists and IR Theorists” The International Studies Association. International Studies Quarterly (41)4, 611-632.
²Enloe, C. (1990) Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. Berkeley:
University of California Press.
³Galtung, J (1969) “Violence, peace, and peace research” Journal of peace research. 6(3), 167-191.

 

 

Conheça a colunista:
Maria Luiza Pereira Pacheco é internacionalista e pesquisadora, graduada em Relações Internacionais pela Universidade Vila Velha e mestra em Relações Internacionais – Estudos da Paz, Segurança e Desenvolvimento pela Universidade de Coimbra. Tem experiência em comunicação social nas áreas de direitos humanos, empoderamento feminino e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Atua em Terceiro Setor e assessoria internacional, e atualmente pesquisa processos de paz e a participação das mulheres.