O desastre de Mariana completa um ano – E o problema está longe de terminar

Destruição em Mariana - veja fotos da destruição causada pela lama em mariana

O bairro de Bento rodrigues, em Mariana, visto por um ex-morador. Foto: Guilherme Mendes

Na tarde de quinta-feira, 5 de novembro de 2015, vimos pela primeira vez a expressão “mar de lama” no noticiário noturno. A partir dali, as cenas do maior desastre ambiental brasileiro, o rompimento da barragem de Fundão, na cidade de Mariana, em Minas Gerais, se tornaram tão comuns no noticiário que não nos chocam mais. Não que elas não sejam assustadoras – um bairro de rural, bem antigo, totalmente soterrado pela lama – mas ainda sim comuns.

Tanto que o primeiro aniversário da tragédia, neste sábado, não parece trazer grandes debates na sociedade. Das 19 vítimas fatais do rompimento da barragem, uma permanece desaparecida. Os desabrigados hoje moram em casas alugadas pagas pela Samarco, a mineradora responsável pela construção que se rompeu – e as cidades que dependiam da água do rio Doce, atingido seriamente pela lama, agora começam a encontrar alternativas para seguir em frente. A indenizações foram pagas. Então o problema foi resolvido, certo

Na verdade, o deslizamento de terra foi só o começo do desastre. Mesmo hoje, os moradores de Bento Rodrigues, antes um pequeno bairro rural longe do centro da cidade, hoje convivem sem o passado – tudo o que tinham foi destruído, e não há dinheiro no mundo que traga uma foto de família ou um animal de estimação de volta (um dos desabrigados, por exemplo, perdeu sua coleção de passarinhos naquela tarde).

Destruição em Mariana - veja fotos da destruição causada pela lama em mariana

Crianças brincam onde antes existia um pomar.Foto: Guilherme Mendes

Os cerca de 800 habitantes do local, em sua maioria, eram pessoas que mal saíam do bairro. Entre os relatos colhidos depois do desastre, descobriu-se que muitos deles iam para o centro da cidade apenas uma vez no ano, e que outros simplesmente perderam o dinheiro que guardaram em casa. Todos eles, de repente, não puderam mais voltar pra casa – e foram todos viver na área urbana da cidade, que não foi afetada pela lama.

Os 60 mil moradores da cidade, mesmo longe da lama, também foram (muito) prejudicados por ela: de cada R$10 arrecadados pela cidade, mais de 9 vinham de royalties da mineração. Vinham, pois desde então as empresas quase não produzem nada na cidade. Como as mineradoras também são as maiores contratantes da cidade, as demissões cresceram. De fevereiro para março, por exemplo, a cidade contou com 48% menos dinheiro. Com isso, menos dinheiro circula na cidade, e mais lojas fecharam.

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Interior da escola invadida pela lama em Mariana. Foto: Guilherme Mendes

Por isso hoje a cidade se vê num dilema: sem poder voltar para casa, depois de todo o desastre, os próprios atingidos pela lama querem que a empresa volte a atuar na cidade, para que eles recebam sua renda e seus empregos de volta.

Claramente estes não são únicos problemas, mas este drama encontrado em Mariana é apenas um reflexo daquilo visto nas cidades de Minas e do Espírito Santo, que perderam empregos pela pesca e até hoje sofrem com a falta de água. A lama, mistura de terra e rejeitos de ferro, ainda suja Bento Rodrigues, e o bairro vai ficar ali, sob uma camada de meio metro de lama, provavelmente por muito tempo. Agora, que completamos um ano, relembraremos todas as cenas dramáticas que vimos nos noticiários no último mês de novembro. Cabe a nós. no papel de cidadãos ativos, que não vejamos tudo ocorrer novamente um dia.