Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: da consciência individual ao impacto global

Por Maria Luiza Pacheco*

Há pouco tempo fiz parte de uma equipe que promoveu um workshop com alunos de 12 a 17 anos em uma escola para falar sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Me surpreendi com o fato deles estarem familiarizados com a temática, articulados e curiosos. A Agenda 2030 já é um tema tratado com frequência nesta escola e logo será parte do plano disciplinar. Uma realidade que se existir na maioria das escolas, fará uma grande diferença. 

Durante a atividade proposta, que consistia em associar os 17 ODS à palavras, frases ou desenhos em uma espécie de mapa mental em cartolina, percebi que a maioria dos jovens tinha facilidade em falar, mas dificuldade em passar para o papel. Alguns deles nos contaram espontaneamente suas experiências associadas aos ODS, por exemplo à Educação (ODS 4), questionando o modelo de ensino, à Saúde (ODS 3), contando sobre a doença de um familiar, à Igualdade de Gênero (ODS 5), descrevendo situações entre colegas na escola.

O exercício da aproximação das nossas vidas com os ODS é o primeiro passo para a concretização de ações no nosso dia a dia. Por isso, quando falamos de Objetivos Globais, temos que adaptá-los, quando possível, para Objetivos Pessoais. Isso significa pensar que o local é também internacional, ou seja, quando promovemos mudanças localmente, isso estará contribuindo globalmente, e é por isso que os ODS não são nada mais do que nós mesmos. 

Outro ponto é pensar nas conexões existentes entre os Objetivos. Quando pensamos em um, facilmente e quase naturalmente associamos a outros. Vamos lá: se falarmos de pobreza, estamos tratando diretamente de fome, saúde, educação, água, energia, desigualdade, consumo, cidades sustentáveis, lixo, crescimento econômico, saneamento básico… uma coisa leva a outra. Os três pilares da sustentabilidade: social, ambiental e econômico, se constroem juntos, dependem um do outro, formando um grande e complexo ciclo de causas e consequências.

Tudo isso pode soar um pouco óbvio, mas na minha experiência com os jovens, percebi que as suas dificuldades em colocar pensamentos, experiências e associações no papel é aquilo que acontece em muitos de nós: a dificuldade de colocar em prática. Sabemos da importância de economizar água, mas só sentimos na pele quando ela falta em nossa casa, sabemos que devemos produzir menos lixo, mas consumimos industrializados com frequência e muitas vezes utilizamos sacolas plásticas, sabemos da importância da reciclagem, mas poucos de nós facilitamos esse processo, sabemos que as praias devem estar limpas, mas muitas vezes atropelamos o lixo, sabemos que existem pessoas no nosso bairro passando frio, mas nem sempre doamos aquilo que não usamos mais.

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A verdade é que a maioria de nós sabe de tudo isso. Certamente sempre podemos aprender mais, e por isso, movimentos, organizações e coletivos são tão importantes neste momento. Mas se já colocássemos em prática aquilo que sabemos, poderíamos ter mais esperanças sobre o alcance de muitas das Metas ligadas aos ODS. O que eu acredito que falte para isso acontecer é justamente a consciência da força e vontade individual, que em conjunto se torna poderosa. Eu particularmente gosto de me perguntar: como posso incorporar ações responsáveis no meu dia a dia que não prejudiquem o meio ambiente e promovam o bem comum? 

E para falarmos de ações e consciência individual, precisamos falar também do todo, do coletivo, e portanto dar a devida ênfase ao ODS 5: Igualdade de Gênero. Essa foi a segunda questão que mais me chamou mais atenção no workshop. Durante a conversa e a exposição verbal dos jovens, quase sempre havia falas sobre empoderamento feminino e desigualdade entre homens e mulheres. Tentei resgatar na memória o que eu realmente sabia sobre esses assuntos nas idades deles, e constatei que não, esta geração não está perdida, como dizem por aí. Muitos dos nossos jovens, principalmente as meninas, já sabem que a desigualdade de gênero impacta suas vidas em vários aspectos, e isso começa desde cedo, ou desde sempre.

Assim, considero que o ODS 5 é primordial, ou até mesmo a base para a possibilidade de sucesso dos demais Objetivos, pois ele não é apenas um direito fundamental, mas também algo necessário para um mundo mais pacífico, justo e sustentável. O Objetivo 5 é transversal a toda Agenda 2030, pois sem igualdade, apenas a metade de nós estaria sendo atendida em suas necessidades.

Falar sobre igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres significa reconhecer as relações de poder desiguais existentes em todas as esferas sociais, significa discutir as vertentes da violência, a naturalização das hierarquias de gênero, a construção e a perpetuação de estereótipos que definem e limitam as pessoas. Tudo isso influencia na participação efetiva das mulheres na promoção do desenvolvimento sustentável, na política, na economia e nas diversas áreas de tomada de decisão, o que determina muitas vezes a incorporação e a abrangência das pautas das necessidades femininas em áreas como saúde, educação, trabalho, paz e violência, justiça, instituições eficazes e parcerias. Para todo o complexo entendimento dos ODS, a igualdade de gênero é primordial e determinante para a  evolução do alcance das Metas.

Seguindo esta linha de pensamento, para falarmos de desigualdade de gênero, precisamos falar de violência. Proponho uma reflexão sobre o “Triângulo das Violências” do precursor dos Estudos para a Paz, Johan Galtung¹: violência direta (manifestada pela força física e pela morte), violência estrutural (caracteriza-se pela distribuição desigual de poder e de recursos, ou seja, oportunidades de vidas desiguais. É uma violência disfarçada, latente e praticamente invisível, que tem consequências devastadoras, principalmente em situações de conflito, como injustiça, exploração, pobreza e opressão) e a violência cultural (considera a política de identidade, expressada a partir de normas e comportamentos construídos através de símbolos culturais como religião, ideologia, ciência, arte e linguagem, podendo causar comportamentos fundamentalistas, racismo, sexismo, colonialismo, entre outros). 

Assim, fica nítido que a violência está presente em quase tudo, interferindo nos processos de construção da paz tanto no âmbito local, quanto no internacional, e consequentemente na evolução do desenvolvimento sustentável. Para considerarmos a questão da violência neste debate, é importante olharmos para todas as suas vertentes e saber, novamente, que as nossas ações devem estar conectadas diretamente ao ODS 16 que se refere à paz e à justiça.

Por isso, para nos aproximarmos dos ODS e deixarmos de pensar que eles estão longe, lá no internacional, e portanto seriam inalcançáveis, precisamos colocar no papel o que sabemos e o que ainda podemos aprender. Colocar na prática, agindo com responsabilidade, igualdade e paz, e lembrando sempre, que o pessoal é também internacional.

¹Galtung, Johan (1969) “Violence, peace, and peace research” Journal of peace research. 6(3), 167191.

 

*Conheça a colunista:
Maria Luiza Pereira Pacheco é internacionalista e pesquisadora, graduada em Relações Internacionais pela Universidade Vila Velha e mestra em Relações Internacionais – Estudos da Paz, Segurança e Desenvolvimento pela Universidade de Coimbra. Tem experiência em comunicação social nas áreas de direitos humanos, empoderamento feminino e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Atua em Terceiro Setor e assessoria internacional, e atualmente pesquisa processos de paz e a participação das mulheres.