Para além da Síria: os 12 maiores conflitos mundiais em 2018

O ano de 2018 chegou à metade já com uma série de tensões políticas, desestabilizações e conflitos civis e entre Estados no mundo. As relações internacionais, principalmente entre as grandes potências, se encontram frequentemente “pisando em ovos”, onde uma ação ou apoio significam muito mais do que aparentam.

Neste ano, além das muitas gafes diplomáticas cometidas pelo presidente estadunidense, Donald Trump – o qual segue com provocações pelo seu Twitter, desprezo por acordos internacionais e dos seus próprios diplomatas -, vemos líderes europeus apoiarem o acordo nuclear iraniano, uma tímida porém fatal suspensão de ações voltadas ao combate à mudança climática e uma crise cada vez mais intrincada na Coreia do Norte, a qual tem envolvido Rússia e Estados Unidos e gerado grande receio na comunidade internacional.

Em 2016 publicamos sobre os principais conflitos mundiais. Muito mudou neste período, mas pouco se resolveu. Um grande exemplo disso é a guerra civil na Síria, que registra atualmente cerca de 5,6 milhões de refugiados e 6,5 milhões de deslocados internos ao longo de sete anos de conflito, sem perspectivas de resolução.

O que começou com protestos contra o governo do presidente Assad, em 2011, logo se transformou em uma guerra entre o governo sírio (apoiado pela Rússia, Irã, grupo Hezbollah e por um partido libanês muçulmano) e grupos rebeldes anti-governo, ajudando, ainda, na expansão de grupos extremistas na região, como o Estado Islâmico.

Como em 2016, a maior parte das tensões atuais se concentram nos continentes da África e Ásia, com foco no Oriente Médio, região conhecida por seus conflitos antigos e aparentemente sem solução. Além dos estados de violência na República Democrática do Congo, República Centro-Africana e México; instabilidade política no Líbano e Egito; e disputas territoriais na região da Caxemira entre Índia e Paquistão e o mar do sul da China com Vietnã e Filipinas, o Diplomacia Civil destaca 12 conflitos mundiais que vêm se agravando em 2018. São eles:

Talibã no Afeganistão
Atualmente, o Talibã está em um momento de grande controle territorial desde o ataque às Torres Gêmeas nos EUA (conhecido como o 11 de setembro, em 2011). O grupo continua a orquestrar explosões suicidas em grandes cidades e a incerteza da situação tem afetado fortemente a economia afegã. Somado a isso, o Estado Islâmico instalou um “grupo afiliado”, o Estado Islâmico da Província de Khorasan (ISIS-KP), o qual desde 2017 também vem causando ataques terroristas no país.

Foto: REUTERS/Parwiz

Crise dos Rohingya em Mianmar
O grupo muçulmano Rohingya enfrenta perseguição e discriminação no próprio país, cujos integrantes, os quais contabilizam mais de um milhão de pessoas, não são nem mesmo considerados cidadãos pelo governo de Mianmar. Grupos budistas nacionalistas, como o MaBaTha e o movimento anti-Muslim 969, frequentemente boicotam comércios de muçulmanos, atacam suas comunidades e os expulsam do país. Após duas ondas de violência e revoltas nos meses de junho e outubro de 2012, o centenário conflito se intensificou no país de maioria budista, resultando na morte de centenas de Rohingya.

Em 2017, porém, um grupo de militantes, denominado Arakan Rohingya Salvation Army (ARSA), realizaram uma série de ataques contra postos do exército e da polícia, o que resultou na morte de mais de 70 pessoas. Como resposta, o exército lançou uma bruta repressão em vilarejos Rohingya, forçando a fuga de mais de 700 mil habitantes para a fronteira com Bangladesh desde então. A situação foi acusada pela ONU como “limpeza étnica” e a crise humanitária vem crescendo a números alarmantes, com Bangladesh atualmente abrigando o maior campo de refugiados, com cerca de um milhão de Rohingya.

Foto: Getty Images

Guerra Civil no Sudão do Sul
Os conflitos começaram em 2013 entre soldados da guarda presidencial, transformando-se rapidamente em uma disputa entre as etnias Dinka e Nuer. Desde o seu início, mais de 50 mil pessoas foram mortas e 4 milhões tiveram de deixar suas casas.

Com toda a violência, fazendeiros não conseguem mais plantar, causando uma redução de comida em todo o país. O Conselho de Segurança da ONU declarou o país, em 2014, como a pior crise alimentícia. Somado a isso, o Sudão tem uma das maiores taxas de crianças-soldado combatendo nos dois lados do conflito, houve uma insurgência de uma série de grupos armados e os acordos de paz não chegam a um consenso.

Foto: Charles Lomodong/AFP

Conflito Curdo-Turco
As tensões datam desde 1984. Os curdos que vivem na Turquia acusam os sucessivos governos de suprimir sua cultura – como a proibição de sua língua na mídia e em livros – e demandam independência, criando assim o Estado Curdo. O Kurdish Workers Party (PKK), considerado um grupo terrorista pelo governo, levanta desde então uma insurgência contra as autoridades turcas, resultando na morte de mais de 40 mil pessoas nesses 33 anos de conflito.

A situação tem piorado com os conflitos nos países vizinhos, Iraque e Síria. Em 2016, ataques na Turquia pelo Estado Islâmico e confrontos com grupos curdos aumentaram significativamente e, após uma tentativa de golpe de estado, em julho do mesmo ano, contra o Presidente Recep Erdogan, aumentou a instabilidade política do país.

Foto: Ilyas Akengin/AFP

Al-Shabab na Somália
Grupo afiliado à Al-Qaeda, o al-Shabab surgiu em 2006, aproveitando-se do enfraquecimento do governo somali naquela época para controlar grandes faixas de território. O grupo terrorista atingiu seu auge em 2011, ao controlar partes da capital, Mogadíscio, e do importante porto de Kismayo, além de ter passado a atacar o Quênia em resposta a uma missão de intervenção do país – foram mais de 150 ataques a acampamentos do exército e locais civis, como o campus de uma universidade (2016) e um shopping de Nairóbi (2015).

Atualmente o grupo está enfraquecido, mas ainda conta com cerca de 8mil combatentes e o domínio de áreas rurais da Somália. Ainda afiliado à Al-Qaeda, o al-Shabab é cotado para uma aliança com o Estado Islâmico desde 2016, o qual vem causando ataques no mesmo país como tentativa de conquistar a fidelidade do grupo menor.

Foto: Feisal Omar/Reuters

Guerra do Iêmen
O país enfrenta uma insurgência liderada pelos Houthis, um grupo rebelde xiita, conhecido por se revoltar contra governos sunitas. Em 2014 o grupo tomou o controle da capital, Sanaa, exigindo a redução dos preços dos combustíveis e um novo governo. As conversas mediadas pela ONU entre militantes do Houthi e o atual governo iemenita não chegaram a um acordo, levando o país a uma cisão entre xiitas e sunitas.

A guerra já envolve outros países, como Estados Unidos e Arábia Saudita do lado dos sunitas e Emirados Árabes Unidos e Irã apoiando os xiitas. Esta já é uma das maiores crises humanitárias do mundo, com mais de 15mil civis mortos ou feridos, 8 milhões sob risco de desnutrição e mais de um milhão sofre de cólera. Ambos os lados do conflito são acusados de violar os direitos humanos e as leis humanitárias internacionais.

Foto: L.A. Times

Conflito Israel e Palestina
A disputa territorial é um conflito que dura há séculos, onde israelenses e palestinos querem o controle de Jerusalém, a qual possui importantes localidades para judeus, cristãos e muçulmanos, as três principais religiões monoteístas do mundo. Em 1948 Jerusalém foi dividida entre Ocidental (Israel) e Oriental (Jordânia), já em 1980 Israel anexou a parte Oriental ao seu território, medida vista como ilegal pela ONU e União Europeia. De 1993 em diante, após tratado firmado entre ambas as partes em conflito, foi acordado que o status final da cidade deve ser discutido nos últimos estágios das negociações de paz, mediada pelos EUA.

Desde 2014, porém, uma série de conflitos vêm agravando a situação, principalmente no território palestino, contabilizando mais de 2 mil mortes em apenas um mês. Nos últimos meses, protestantes palestinos têm feito atos nos limites do território da Faixa de Gaza contra as condições inviáveis na qual vivem, clamando pelo direito de retornar – a taxa de desemprego na região já atinge os 44%. Soldados israelenses têm usado armas de máximo dano contra os palestinos, a maioria não demonstrando ameaça a eles. A Anistia Internacional denuncia estes atos, afirmando ser um sério abuso dos direitos humanos e que as autoridades israelenses não estão punindo estas ações.

Leia mais: Inauguração de embaixada dos EUA em Jerusalém gera conflitos e polêmica internacional

Foto: Malaysian Access

Boko Haram na Nigéria
Um dos maiores grupos militantes islâmicos do continente africano, desde 2011 o Boko Haram tem causado grandes ataques terroristas contra grupos religiosos e políticos, exército e civis. O grupo chamou a atenção internacional após o sequestro de 200 meninas em uma escola, em 2014.

Apesar da ajuda de outros países, como Chade, Camarões e Níger, contra as investidas do Boko Haram, o grupo segue fazendo ataques suicidas com grandes consequências, já tendo contabilizado mais de 28 mil mortes, e tem conseguido penetrar a importante cidade comercial de Lagos e se expandir para países fronteiriços, como Camarões. Suas atividades causaram o deslocamento de mais de 2 milhões de nigerianos.

Foto: Sahara Reporters

Estado Islâmico no Iraque
Mais de duas milhões de pessoas viviam em áreas no Iraque sob o controle do grupo extremista. Em 2014 o EI avançou do Iraque à Síria e uma coalizão internacional, com mais de 60 países, participaram de ataques aéreos na região para derrotar o grupo. Foram mais de 13 mil ataques aéreos apenas por parte dos EUA.

Atualmente, o grupo controla apenas 2% do Iraque, contra os 40% que tinha em 2014, mas seus ataques seguem com grande violência, matando até mesmo centenas de civis que retornavam a algumas cidades supostamente pacificadas. O EI continua, também, atuando em países próximos.

Foto: Globalo

Guerra Civil na Líbia
Desde a morte de Muammar al-Gaddafi, em 2011, a Líbia busca reconstruir as instituições do estado em meio ao crescimento de milícias rebeldes (incluindo integrantes do Estado Islâmico e jihadistas). Neste período, mais de 430 mil pessoas tiveram de deixar suas casas.

A desestabilização política, somada às atividades terroristas do Estado Islâmico e outros grupos rebeldes, vêm causando a falha das negociações e tentativas de resolução por parte de força tarefas da ONU. Os ataques aéreos performados pelos EUA também estão atingindo civis, o que contribui para uma grande crise humanitária.

Foto: EPA/Maher Alawami

Desestabilização no Mali
Desde a sua independência da França, em 1960, o Mali tem vivido uma série de lutas políticas e golpes, contribuindo para o surgimento de inúmeros grupos militantes que reivindicam territórios no país e desestabilizam países fronteiriços. Em 2012 um golpe militar contribuiu para que alguns grupos militantes tomassem a região norte do país. Desde 2013, o chamado G5 do Sahel (composto por Mali, Burkina Faso, Chade, Mauritânia e Níger) e a França vêm conduzindo missões para acabar com a atuação dos grupos que controlam o norte.

Apesar do aumento do envolvimento de outros países, estes grupos ainda mantêm o controle da região e vêm se expandindo para outros países, causando uma série de ataques terroristas. A preocupação atual é a de que houve um aumento de força nestes grupos, com possibilidade de haver um movimento em direção ao centro do país e os ataques têm sido cada vez mais mortais, com foco em pontos turísticos como hotéis e resorts.

Foto: The Atlantic

Crise política no Burundi
Desde que se tornou independente, em 1962, o Burundi vivencia inúmeros episódios de violência, incluindo massacres (1972 e 1988) e uma guerra civil que durou 12 anos (1993). As origens dos conflitos são principalmente étnicas, entre Tutsis e Hutus, com um histórico de políticas discriminatórias – similar à história de Ruanda, país que compartilha dos mesmos grupos étnicos. No caso do Burundi, porém, é o governo formado por Tutsis que vem cometendo grandes atos de violência contra Hutus.

Desde 2009 há uma supressão de partidos opositores por parte do governo e perseguição a membros da sociedade civil, reduzindo o espaço democrático do país. Em 2013 o governo aprovou uma lei contra a liberdade de imprensa e logo depois restringiu a reunião de grandes públicos.  Em 2015, o presidente Pierre Nkurunziza elegeu-se ilegalmente pela terceira vez, causando uma série de protestos, com grande repressão policial e mortes de civis. Por conta da instabilidade, mais de 280 mil burundianos fugiram do país e mais de mil pessoas morreram.

Foto: USA Today