Primeiro bolsista do Diplomacia Civil desenvolve projeto com água da chuva para seca no Nordeste

Por Carla Trabazo

Após uma seleção que contou com mais de 300 candidatos de todas as partes do Brasil, o Instituto Global Attitude lança o primeiro vencedor da Bolsa Jovem Diplomacia Civil. Erleyvaldo Bispo dos Santos irá participar, com tudo pago, da delegação oficial do programa no Fórum dos Países da América Latina e Caribe sobre Desenvolvimento Sustentável, promovido pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), em Santiago, Chile, no mês de abril.

Visando o engajamento da juventude brasileira no âmbito internacional, por meio de um processo que busca incluir a todas e todos, independente da origem regional, étnica ou de gênero, o Instituto Global Attitude lançou a primeira vaga para o benefício, voltado à parcela da juventude considerada em situação de vulnerabilidade socioeconômica que cobrirá todos os custos do programa.

Natural da cidade de Lagarto, no interior de Sergipe, Erleyvaldo, 22 anos, é técnico em Agropecuária pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Sergipe (IFS), graduando em Engenharia Florestal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e membro do Laboratório de Sensoriamento Remoto e Climatologia Aplicada e estagiáriode Recursos Hídricos da Agência de Bacia (AGEVAP). Motivado por suas próprias vivências de escassez hídrica enquanto jovem nordestino, o bolsista possui grande interesse por questões ambientais, com a água sendo seu foco principal.

Sua dedicação ao meio ambiente começou ainda em 2009, quando foi medalhista na II Olimpíada Ambiental de Sergipe. Em 2018, participou de dois eventos internacionais, em São Paulo, como relator voluntário do 8th World Water Forum e convidado do 4th Global Climate Policy Conference.

Foto: Arquivo pessoal

“Quando você fala em meio ambiente tem várias vertentes e caminhos pra seguir. Eu não tinha um caminho, falava no geral, não tinha enfoque. No momento que fui pro Fórum Mundial da Água me deparei com várias informações que, até então, eu não conhecia e me deu um estalo na mente: eu tenho que trabalhar com água. Foi onde oficializei minha grande vontade e paixão e quando comecei a me conectar com a região de onde vim”, explica Erleyvaldo.

Ainda durante o evento, o sergipano conheceu um haitiano integrante de uma organização de jovens mobilizados pelas mudanças climáticas que o inspirou a agir de forma mais concreta pelo meio ambiente. “Ele me questionou sobre o que faço, enquanto jovem, pela realidade do meu país. É importante que nós sejamos o exemplo, tenhamos voz e que nossas pautas sejam ouvidas, mas vi a grande necessidade de fazer algo concreto. Fiquei o ano passado todo, depois do fórum, me perguntando o que poderia fazer sobre a questão da água, que pudesse ajudar as pessoas e gerasse impacto”, lembra.

Foi então que, ainda em 2018, o jovem criou o projeto socioambiental Águas Resilientes, o qual busca reduzir as mudanças climáticas e levar segurança hídrica e educação climática para pessoas em regiões de vulnerabilidade por meio de um sistema de captação de água da chuva de baixo custo. “Já passei uma semana sem água em casa, mas tinha a sorte de ter uma caixa d’água, coisa que outras famílias não têm. Este é um projeto que fala muito de onde vim. Nós, nordestinos, sempre nos deparamos com escassez hídrica e, com o passar dos anos está ficando pior. 2012 a 2017 foi o pior período de seca no Nordeste nos últimos 100 anos”.

Foto: Arquivo pessoal

Contando com a parceria de um amigo, Erleyvaldo está em fase de desenvolvimento do projeto e inscrevendo-o em editais. Com a sua participação como delegado no fórum da Cepal, o sergipano espera reunir um aprendizado ainda maior na questão ambiental, ao mesmo tempo que compartilhará com os participantes seus conhecimentos sobre a importância da proteção da água pela juventude e a gestão sustentável de recursos hídricos, oferecendo a possibilidade de “pensar outras formas de governança da água”.

Esta será a primeira vez que ele sairá do país, feito que aguarda com muita expectativa. “A minha visão de mundo é ampliada a partir dos eventos que fui. Nem sempre é fácil ir pra um evento internacional, mas é importante que estejamos nestes ambientes, porque expande sua visão de mundo. Você fica contextualizado globalmente e amplia seus horizontes, pois estes eventos internacionais sempre me trazem muitas reflexões. Vai ser uma grande experiência”, declara.

O fórum
Promovido pela Cepal, o Fórum dos Países da América Latina e Caribe sobre Desenvolvimento Sustentável foi criado durante sessão de 2016 no México, com o objetivo de dar seguimento e monitorar a implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e suas metas.

Foto: Divulgação

Já em sua terceira edição, o evento acontece na sede da Cepal, de 22 a 27 de abril, e tem como foco todos os países da região, reunindo representantes de Estado, setores privados, sociedade civil, bancos de desenvolvimento, órgãos subsidiários da própria Cepal, agências da ONU e blocos de integração regional.