Quem é Ernesto Araújo e como seus ideais podem abalar as relações diplomáticas e econômicas com o mundo

Na última quarta-feira (14), o presidente Jair Bolsonaro anunciou a nomeação de Ernesto Araújo como novo Ministro de Relações Exteriores, afirmando que o ministro terá de “motivar o MRE [Ministério das Relações Exteriores], incrementar a questão de negócios no mundo todo sem viés ideológico de um lado ou de outro e ter iniciativa”.

Araújo, que atua há dois anos como diretor do Departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos do Itamaraty, declarou que com o novo cargo fará uma política “efetiva em função do interesse nacional, tornando o Brasil um país atuante, próspero e feliz”.

Questionado durante coletiva se pretende aproximar o Brasil a alguns países, o diplomata respondeu não dar preferências e que “temos relações excelentes com todos os parceiros para incrementar as parcerias em benefício de todos e do povo brasileiro, sobretudo”.

Ainda que elogiada por uns – como fez o atual ministro da pasta, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), que disse que o futuro ministro tem o respeito dos colegas e tem sido um “servidor exemplar” do Itamaraty – a escolha preocupou grande parte da comunidade internacional e outros setores brasileiros, como o do meio ambiente, por conta da visão de mundo de Araújo.

Iniciando a carreira no Itamaraty em 1991, o diplomata, agora com 51 anos, acumula quase três décadas de atuação, mas somente chegou ao seu primeiro posto como embaixador em junho deste ano. Araújo ganhou a confiança do novo presidente por compartilhar opiniões e ideias similares quanto ao patriotismo exacerbado, a priorização do alinhamento de atividades com os Estados Unidos e à oposição ferrenha ao multilateralismo e ao “marxismo cultural”. Com isso, acredita-se que a diplomacia brasileira sofrerá uma guinada radical sob seu comando.

Carta emitida pelo futuro ministro após nomeação. Foto: Reprodução

Pouco conhecido entre analistas de relações internacionais e por boa parte da população, pesquisas no Google do Brasil durante a última semana dispararam com a pergunta “quem é Ernesto Araújo?”, chegando até o seu blog pessoal, Metapolítica 17, onde publica textos e exprime opiniões que, como o subtítulo já diz, são “contra o globalismo”.

Já na descrição do blog, o diplomata afirma que quer “ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”. E continua: “Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anti-cristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história”.

Publicando críticas quase que unicamente ao PT, Araújo discorre sobre uma série de questões políticas, econômicas e sociais do país. Em uma publicação do mês passado, o diplomata afirma que o partido (apelidado por ele de “Projeto Totalitário”) está “criminalizando o sexo e a reprodução, dizendo que todo ato heterossexual é estupro e todo bebê é um risco para o planeta porque aumentará as emissões de carbono”. Ele segue, então, acusando o PT de criminalizar a carne vermelha, o ar condicionado, a beleza, os filmes da Disney e a biologia, “ao proibir que se diga que uma pessoa nasce homem ou mulher”.

Foto: Reprodução

Ainda no mesmo texto, o futuro ministro defende Bolsonaro e as recentes atividades denunciadas durante as eleições de divulgação de notícias falsas pelo aplicativo Whatsapp, o qual “está ajudando Bolsonaro não porque empresas comprem pacotes de mensagens, mas porque o Whatsapp é um instrumento estupendo para liberdade de expressão, e a liberdade de expressão favorece Bolsonaro por uma margem de 100 a zero”.

Atacou, ainda, os sites de checagem de fatos, que na sua opinião seria um “grupo de marxistas que não veem a hora de desligar o interruptor da internet autêntica”.

A apreensão por parte da comunidade internacional, porém, se centra nas opiniões expressas pelo diplomata quanto ao meio ambiente e relações econômicas. Para Araújo, a mudança climática faria parte de um plano de “marxistas culturais” para sufocar as economias ocidentais e promover o crescimento da China e que políticos esquerdistas sequestraram o ambientalismo para usá-lo como ferramenta para a dominação global.

As ideias do futuro ministro dão a entender que o Brasil dará uma chacoalhada no Acordo de Paris – assinado por 195 países, comprometidos em reduzir as emissões de gases de efeito estufa e reduzir o avança da temperatura média global. “Seria muito ruim para a imagem do país se ele trouxer sua ideologia ao trabalho”, declarou o Secretário Executivo do Observatório do Clima, Carlos Ritti.

“Bolsonaro não é Trump. Brasil não é Estados Unidos. Não temos as mesmas cartas. Se o Brasil se tornar um pária para a agenda climática global será extremamente ruim para os negócios, especialmente o agronegócio. Quando forem à Europa para negociar um acordo, ressalvas climáticas serão impostas”, continua.

As opiniões defendidas por ambos o novo presidente e o ministro das Relações Exteriores podem significar um risco, por exemplo, para as vendas de soja e carne na Europa. Recentemente, Bolsonaro recuou quanto à sua declaração de retirar o país do Acordo de Paris e unir os ministérios da agricultura e meio ambiente, mas isso serviu de alerta para importadores.

Foto: Sergio Lima / AFP

Vale lembrar, ainda, que o Brasil é o primeiro exportador de carne Halal no mundo, a qual segue regras de produção exigidas pela religião muçulmana. Assim, a ideia de seguir os passos do presidente americano, transferindo a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, encontra forte resistência também dentro da própria gestão de Bolsonaro, como é o caso da sua equipe do agronegócio.

Tal qual o presidente, Araújo é grande admirador da política de Donald Trump, que, segundo ele, vai “salvar o Ocidente”. Essa política de aproximação com o norte pode significar um freio para a cooperação sul-sul, além de um maior isolamento de Cuba e da Venezuela. Ignorar a importância da China também é perigoso, visto que atualmente é o primeiro mercado de exportação do Brasil.

Em entrevista à AFP, Mônica Herz, professora do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, declarou que a escolha de Ernesto Araújo se deu porque “expressa muito claramente a visão de mundo de Bolsonaro”, o qual estaria “procurando alguém que falasse às suas bases, com seus valores ultraconservadores, e uma forte interação entre religião e política”.