Representação feminina, movimento negro e sustentabilidade: saiba o que rolou no fórum da Cepal

Representantes de 28 países da América Latina e Caribe, 35 organizações não-governamentais e agências da ONU, mais de 300 membros do setor privado e 7 delegados do Diplomacia Civil se reuniram em Santiago, Chile, para participar do segundo Fórum dos Países da América Latina e Caribe sobre Desenvolvimento Sustentável, entre os dias 18 e 20 de abril.

Organizado pela Comissão Econômica da ONU para América Latina e Caribe (Cepal), o fórum foi criado para dar seguimento à implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, seus objetivos (ODS) e metas, aprovados em 2016 durante sessão da Cepal no México.

Em comunicado, Ileana Núñez Mordoche, Viceministra do Ministério do Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro de Cuba, declarou que neste fórum houve “um intercâmbio aberto e franco, uma vez que foi um espaço para conhecer outras experiências. O mais importante é que não foi um diálogo somente entre governos, tendo contado com a ativa participação da sociedade civil. Em outras palavras, estavam todos os que devem impulsionar a Agenda 2030”.

No documento final, com conclusões e recomendações feitas ao fim do evento, destacou-se a necessidade em acelerar o ritmo de implementação e conscientização dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, levando em conta as dificuldades que ainda existem para alcançá-los, como a pobreza, desigualdades, dívida global e redução dos níveis de cooperação internacional na América Latina.

Delegada Laura Dantas conversa com Lia Manso, assistente e consultora do projeto Mulheres Negras Fortalecidas na Luta Contra o Racismo e o Sexismo, da organização CRIOLA. Foto: Global Attitude

O documento enfatiza, ainda, que o sucesso do desenvolvimento sustentável depende da participação ativa dos setores público e privado, sendo necessário harmonizar os incentivos a este último com os objetivos públicos nacionais de investimento de longo prazo, para assim reduzir as brechas estruturais de desigualdade na região e erradicar a pobreza em todas as suas formas.

Essa experiência definitivamente me ajudou para entender, na prática, como funciona um evento da Cepal. Observa-se, através da experiência direta no evento, o que é discutido internacionalmente e como os países abordam os mais diferentes assuntos. Assim, academicamente falando, o evento me ajudou a entender melhor o papel político e social do desenvolvimento sustentável. Paralelamente, me ajudou profissionalmente, por ser uma participação de grande relevância para adicionar no meu currículo”, afirma Victor Deucher, delegado do Diplomacia Civil.

Delegados se reuniram na Embaixada brasileira para conversar com Renata Fasano, Mirtes Sobreira (ambas chefes de setores na embaixada), Anna Magdalena Bracher, diretora do Centro Cultural Brasil-Chile e o embaixador Carlos Sérgio Duarte. Foto: Global Attitude

Além de Victor, outros seis jovens brasileiros participaram da delegação do programa: Cleber Lickunas, Laura Dantas, Luiza Sartori, Natasha Grzybowski, Nathália Pavam e Renan Costa. Além de participar do fórum e conhecer a sede da Cepal em Santiago, eles contaram com uma agenda de reuniões exclusiva, tendo conversado com o Coordenador da Área de Cooperação Sul-Sul do Programa de las Naciones Unidas para el Desarrollo (PNUD Chile), Michael Granadillo, Renata Fasano e Mirtes Sobreira (ambas chefes de setores na embaixada), Anna Magdalena Bracher, diretora do Centro Cultural Brasil-Chile, embaixador Carlos Sérgio Duarte e Alberto Boch, Secretário Geral da Coordinadora de Productores Familiares del Mercosur (COPROFAM).

“Um dos momentos que mais me marcou foi o de conhecer e tirar uma foto com a Secretária Executiva da Cepal, Alicia Barcena. Outro bem interessante foi conversar com Creuza Oliveira, presidente da FENATRAD (Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas do Brasil), pelo fato de ela representar um setor que realmente batalha para que haja mudanças na sociedade (principalmente no nosso país), a partir de soluções bastante objetivas”, continua Victor, que destaca ainda ter conhecido o Diretor de Monitoramento e Avaliação no Departamento Nacional de Planejamento da Colômbia, Felipe Castro, ao qual credita ter sido um dos seus melhores networkings durante o evento.

Delegados ao lado de Alberto Boch, secretário geral da Coordinadora de Productores Familiares del Mercosur (COPROFAM). Foto: Global Attitude

“Ele mostrou bastante conhecimento na área, avaliando com metas objetivas se os ODS estavam sendo alcançados, algo que, por mais simples que pareça, não tantas vezes ocorreu no evento”, analisa.

Para a delegação, a possibilidade de estar em contato com profissionais e representantes de grandes organizações foi um dos pontos altos do programa, permitindo um rico networking.

“Conheci a Dulclair Sternadt, que é a representante da área de Partnership da Organização da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO). Ela foi incrivelmente simpática comigo e ao saber da minha área de estudo, se propôs a me colocar em contato com as pessoas da área de agroecologia da FAO, e assim o fez. Com isso, consegui agendar um almoço com a Barbara Jarschel, brasileira que foi super solícita comigo, conversamos por duas horas durante o almoço, o dobro do tempo planejado. Acredito ter feito um contato forte na área, que poderá me auxiliar a desenvolver alguns projetos profissionais tanto pessoais quanto das instituições que trabalho. Foi indescritível ter conseguido essa reunião, e só por isso já bastaria o investimento na viagem”, conta Natasha Grzybowski.

Para a delegada, um dos momentos mais marcantes do evento foram os debates voltados à inserção de questões voltadas aos afrodescendentes nos ODS. “É de fato vergonhoso para todos os países que produziram essas metas que elas não contenham nenhum recorte de raça. Foi espetacular ver o movimento negro se desenvolver tão forte e em busca desse recorte ainda em tempo na Agenda 2030. Participar de debates tão iniciais na Cepal sobre um tema tão importante como esse foi sem dúvida um privilégio enorme e me sinto muito honrada por isso”.

Natasha afirma, ainda, que após a experiência no evento se sente mais preparada para participar de discussões sobre órgãos internacionais e seus funcionamentos. “Penso que, sendo formada em Relações Internacionais e atuando diretamente na área prática do alcance da igualdade por meio de Organizações da Sociedade Civil, creio que consegui fazer o link de como posso atuar nas duas áreas para promover a justiça e igualdade”.

Nathália Pavam e a Secretária Executiva da Cepal, Alicia Bárcena. Foto: Global Attitude

Os delegados também se admiraram com a representação feminina na direção da Cepal e no fórum. Segundo afirma Nathália Pavam, a oportunidade de conhecer na prática uma organização que havia estudado é muito interessante, mas “conhecer mulheres tão atuantes com relação à Agenda 2030 e poder conversar e tirar uma foto com a Alicia Bárcena foi certamente o ponto alto, pois ela tem o cargo mais alto da Cepal e é uma inspiração para todas as mulheres e meninas”.

“Acho que essa experiência nos mostrou o lado real das Nações Unidas e seus órgãos. Soube reconhecer nos momentos formais a diferença no tom dos atores internacionais quando se tratava de suas políticas nacionais, mas também como os outros atores relatavam as experiências de seus países nas reuniões paralelas e dividiam conhecimento em determinadas áreas. Entro para a vida profissional com mais consciência sobre a minha área e maior experiência em fóruns internacionais”, continua.

Já Natasha sentencia: “Se fosse escolher uma palavra, escolheria intensidade. Acredito que consegui aproveitar muito bem tanto como delegada e ouvinte, como profissional em busca de networking na sua área, como recém formada em busca de novas amizades e de descentralizar seus contatos na área. Sem dúvida, voltei renovada, renovei minhas energias para o trabalho, renovei meus contatos profissionais e amizades, renovei a turista sedenta em mim. É um investimento alto, mas já conversei com várias pessoas que ficaram curiosas sobre como fui e incentivei sem pensar duas vezes, vale a pena demais”.

Confira depoimento de Luiza Sartori sobre a conduta de alguns governos no fórum: